Não vale chorar

Categoria(s): Música

Se você está triste, para baixo, cansado, magoado, melancólico, saudoso ou resumidamente “down”, não escute Ryuichi Sakamoto pois com toda a certeza começará a olhar em volta procurando um lugar alto para passar o cinto, colocá-lo no pescoço e se jogar do sofá.

O piano do Sakamoto é algo como uma marcha fúnebre mas não apelativa como uma marcha fúnebre. É aquela coisa para escutar sozinho, preferencialmente na penumbra, com uma taça de vinho na mão (nada de Sangue de Boi!), com os olhos fechados para deixar a cabeça voar escutando cada tecla do piano, cada nota do violino que sempre o acompanha, cada passada de vara no cello. Mágico, profundo, doído. Acho que assim posso descrever sua música.

O interessante é que nem sempre foi assim. Ele tem mestrado em música eletrônica que lhe rendeu mais de meio milhão de discos vendidos só nos Estados Unidos do grupo Yellow Magic Orchestra, o percursor do syntypop, acid house, techo e outros ritmos/sabores da música eletrônica, junto com os alemães do Kraftwerk, que tocam nas baladas de hoje em dia (guardando as devidas proporções, por favor).

Numa guinada que não sei entender/explicar (e também não quero), o camarada mudou de lado, largou a eletrônica e foi para o clássico piano com o qual levou um Oscar em 87 pela trilha sonora do filme O Último Imperador (que também levou o Globo de Ouro e o BAFTA) e compôs músicas para um sem-número de filmes e artistas (inclusive Caetano Veloso que ainda não me passa pela goela) de peso em todo o mundo.

Esscrevo hoje porque consegui dias atrás seu último trabalho lançado há 15 dias e intitulado Three que não foge a regra de seus atuais trabalhos; dá para chorar litros como diz amigo meu. Simples, bonito e doído pacas. Algo para NÃO se escutar triste pois decerto os efeitos colaterais serão nefastos. De outro lado, se está a fim de dar uma parada no tempo e viajar sem maconha na cabeça, arrume um fone decente ou um par de caixas de som de verdade e coloque o CD para tocar. Aposto que vai tomar a garrafa inteira sozinho e ainda vai olhar para a adega e namorar a segunda. Tudo bem, não se faça de rogado. Tome e depois caia na cama. Vai ser o melhor par de horas do últimos tempos para você.