Viagens em grupo? Não, obrigado

Categoria(s): Pessoal, Viagens

As últimas duas décadas foram de mudanças. Uma delas, a facilidade para se viajar e as viagens em grupo. Esta última, a alegria e a praga de quem gosta de andar pelo mundo.

Lembro-me com perfeita nitidez. Nos idos de 90, estava com alguns amigos em Ponta de Trindade no litoral do Rio. Um lugar conhecido como “a praia dos malucos” pelos “alternativos” que lá buscavam natureza, água salgada, cerveja, sexo e maconha.

Quatro horas da manhã, dormindo na areia, sou acordado por uma luz. Penso logo que era um disco voador e que seria abduzido. Que nada! Era uma Santana Quantum com uma família imensa dentro. Dela, saem quatro moleques com não mais de 12 anos que começam a correr pela praia. Naquele momento tive a certeza: Trindade e meu sossego acabaram.

De lá para cá são mais de 40 países visitados e nenhum com viagens em grupo. Não gosto e me sinto mal só em ver aqui em Amsterdam ou pelo mundo, grupos correndo atrás de uma bandeirola. Em minha percepção, viagens em grupo são, no mínimo, contraproducentes.

Uma experiência única

Minha micro-empresa na Europa é sediada em Tallinn, na Estônia. Uma cidade bonita e cheia de História. Da última viagem para a capital estoniana trago uma recordação que é o motivo deste post.

Cheguei em Tallinn numa sexta-feira e rapidamente resolvi os assuntos pendentes. Como somente voltaria para Amsterdam no domingo, tinha dois dias para “flanar”. Arrumei um hostel no centro da cidade velha de Tallinn por € 12 a noite, que seria minha “base” para caminhadas.

Tallinn não é plana como Amsterdam. Existem grandes ladeiras principalmente dentro das muralhas. Para ajudar, as ruas antigas são de pedras como há séculos atrás. Este não é um cenário que me bota medo ou torna-se um problema, mas para um grupo, sim. Nas viagens em grupo manda a boa educação esperar por aqueles que podem menos que você. Se não bastasse, são raras as oportunidades de dar um “até logo” e fazer você mesmo seu roteiro. Dessa forma, andar em certas cidades e fazer certas atividades torna-se um desafio para a paciência quando em grupo.

Lembrei-me disso no sábado a noite. Já estava cansado da comida local (que é muito boa) mas procurava algo mais “normal”. Nestes momentos a melhor fonte de informação é a recepção do hostel e foi tiro e queda. Perguntei ao garoto que lá estava onde era possível comer um hambúrguer “decente”. Como resposta obtive o melhor lugar de Tallinn: o Box Burger.

Você pode estar pensando: “puta merda, tudo isso para ler sobre uma hamburgueria?” Não meu caro(a), não é a hamburgueria o assunto, mas sim a experiência.

O Box Burguer

Já era tarde, coisa de nove da noite e chovia fraco. Verificando no mapa, o local ficava fora das muralhas da cidade velha, no topo de uma colina. Algo como vinte minutos de caminhada por ruas meio sombrias e túneis de passagem da época do comunismo soviético. Para completar o cenário, perto da estação de trem, local que normalmente não é convidativo para ninguém.

Mas literalmente, quem está na chuva é para se molhar. Peguei minha jaqueta e lá fui caçar o tal hambúrguer. Confesso que foi difícil a decisão de sair do hostel quente para enfrentar a garoa. Porém sempre acreditei que o melhor das viagens não são os pontos turísticos que se conheceu. São as diferentes e únicas experiências que se viveu. Senti isso em Buenos Aires num jantar assistindo um show de tango. Senti isso num barco cruzando o Bósforo e também em um show no meio dos jardins do Palácio Schönbrunn. Experiências que leva-se para a vida toda e que não se apaga da memória com facilidade.

Com mapa em punho, começo a caminhada ainda um pouco descrente com o que iria encontrar. Me perdi algumas vezes, errei a passagem do túnel, encontrei alguns seres “estranhos”. Mesmo assim segui em frente com a crença da experiência dentro de mim. E ela não falhou.

Para guardar na memória

O lugar é simplesmente um “nada”. Qualquer boteco de SP é maior. Nenhuma mesa, algumas banquetas, um balcão para três pessoas e outros dois para mais quatro cada. Ao entrar, uma atmosfera bucólica que imediatamente me remeteu àqueles filmes com bares de beira de estrada perdidos no meio do deserto.

E o hambúrguer? Simplesmente o melhor que já comi na vida, deixando qualquer hamburgueria chique dos jardins no chinelo. Simples, bem feito, servido num guardanapo dentro de uma cestinha que parecia vime. No cardápio somente quatro opções com pouca variação, como seria esperado de lugar assim. Nada de luxo, nada de glamour. Mas a emoção não foi a comida, foi o “conjunto da obra”.

Chegaram três moças com duas crianças falando russo (literalmente). Foram embora e logo depois, um casal jovem procurando um pouco de calor para o corpo e barriga.

As caixas de som tocavam uma música que não conhecia, chamada Lucky Man. Atrás do balcão, uma moça toda tatuada e na chapa um grandalhão com avental que certamente não via sabão há semanas. Lá fora, garoa fina e frio para assustar qualquer um que não tenha desejo de novas experiências. Mas esse conjunto de música, cheiro de fritura, grandalhão, avental, tatuagem e chuva me fez sentir um enorme prazer e, mais que isso, ter uma experiência única.

Não sei quanto tempo mais fiquei depois de terminar minha comida porém cada minuto deste cenário foi inesquecível. Por fim, saio para retornar ao hostel com a certeza que valeu a caminhada, a chuva, os erros de percurso.

Viagens em grupo?

Depois dessa narrativa, pergunto: é possível, sem ser rotulado de fresco, individualista ou mesmo “diferentão”, ter uma experiência como essa? Pouco provável. Acordar hora X, café da manhã na hora Y, visitar P, Q, Z, voltar para o hotel, jantar às X horas e no dia seguinte, tudo de novo. Um ritmo frenético para tentar fazer o máximo em menos tempo, como se fosse uma barra de gelo que vai se acabando no calor dos trópicos.

Decerto você pode dar aquela “escapadinha” e procurar oportunidades assim, porém o estar em grupo faz com que você deixe esse tipo de experiência de lado. Infelizmente viagens em grupo oferece tudo aquilo que todos oferecem: o mesmo que todos.

Porém entenda, quando falo de “viagens em grupo”, me refiro aquelas excursões com guias contratados para repetir dezenas de vezes a mesma coisa para centenas de pessoas, passando nos mesmos lugares que todos. Grupos de amigos, casais ou mesmo companheiros de viagem devem ser excluídos desse contexto.

Pode ser que no futuro quando na terceira idade eu mude de opinião mas acho pouco provável por este ímpeto de ter novas e emocionantes experiências. Já poderia ter batido minha meta de conhecer 100 países antes de morrer mas não quero fazê-lo simplesmente por fazer. Em cada viagem, em cada lugar, quero uma nova e profunda experiência que guarde para sempre na memória. Sou ruim para guardar datas e nomes, mas muito bom para guardar e revistar as experiências marcantes.

Poucos são os que não assistiram a obra-prima de Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão. Nele, Michael Corleone conhece sua primeira esposa numa caminhada pela Sicília e depois, pede ao pai da moça para conhecê-la em um bar chamado Vitelli. O bar existe até hoje e poucos tiveram a marcante experiência de lá estar sentados no mesmo lugar que Al Pacino sentou há 45 anos atrás. Eu tive essa experiência e posso afirmar, marcada para o resto de minha vida.