Uma semana de Timor Leste – A viagem

E já se foi uma semana de Timor Leste. Desde o vôo até agora, muita água já passou por debaixo da ponte. Algumas coisas interessantes, outras estranhas mas a maioria delas uma grande novidade para quem estava do outro lado do mundo no conforto de casa.

Então, cá estão as novidades deste tempo. Have Fun!

A viagem
Se você quer saber o que é estar “quebrado”, faça este vôo. Ele consegue acabar com o corpo de qualquer filho de Deus. É algo desumano sem dúvida. Primeiro pela distância e tempo (mais de 65 horas de viagem) e depois pelas condições dos assentos dos aviões.

Saí de São Paulo num vôo da LanChile com destino a Santiago. Um vôo até tranquilo e logo estava em terras chilenas. O melhor desta “perna” da viagem é o vinho. Nada como um bom chileno servido a bordo para descansar um pouco o corpo. Mas claro que esta bondade toda tinha um preço: o aeroporto de Santiago é uma verdadeira zona: primeiro porque não sabem informar nada (mesmo sabendo espanhol) e segundo que existem tantas entradas e saídas para os viajantes que deixa qualquer um biruta. Neste aeroporto fiquei 3 horas onde pude comer um bom bife da grossura de um dedo e tomar umas duas cervejas. Além disso, comprei um chocolate daqueles enormes a fim de aguentar o próximo vôo que seria fatalmente o pior: Santiago até Auckland na Nova Zelândia.

Auckland, Nova Zelândia
Depois de não sei quantas horas (desisti de marcar as horas para não ficar louco), cheguei na Nova Zelândia. Nesta perna duas coisas interessantes; saí de Santiago à noite e cheguei à noite em Auckland mesmo depois de várias horas de vôo (claro né, estou seguindo a rotação da Terra) e a outra mais interessante. Quando entro no aeroporto de Auckland tem um relógio digital que marcava dia 12 de janeiro. Como saí do Chile no dia 10, pergunto: cadê o dia 11 na minha folhinha? Fui abduzido??? Que nada, como passei por cima da linha internacional de data, “perdi” um dia de minha vida. Algo muito estranho com certeza.

Mais 3 horas esperando a boa vontade da companhia aérea para decolar novamente mas com uma diferença; o aeroporto é de uma organização que dá raiva (o de Sydney é assim também). Nas paredes, placas indicativas de quanto tempo você vai precisar andar para chegar aos portões de embarque, lojas abertas, tudo limpo, bonito e tão organizado que penso que coisas assim só funcionam fora do Brasil. Se fizer algo assim em São Paulo, ninguém consegue se achar…

Sydney, Austrália
Muito bem, cheguei na Austrália (não disse que estaria nela em 2007? Hein? Hein?). Depois de uma passada no freeshop para comprar um perfume, sigo para a imigração. No caminho um monte de avisos sobre o que é permitido ou não trazer na bagagem. Ao contrário dos EUM1 que se preocupa com uma porcaria de um isqueiro Bic, a Austrália se preocupa com o que pode estragar seu ecosistema, principalmente plantas, comida, sementes e coisas que podem dar uma dor de cabeça enorme para o país/continente. Isso inclui inclusive uma pergunta na ficha de imigração sobre se você andou pisando em terra infectada antes de entrar no país (será que SP pode ser considerada infectada? Não sei…). Ai, se você está carregando algo que seja proibido, existem dezenas de grandes lixeiras em todo o aeroporto para que você dispense o que é proibido. E não adianta enrolar, os caras são safos (senta que vem história).

Estou na fila da imigração e no vôo comi a barra de chocolate toda. Mas por um esquecimento daqueles, deixei um pedaço no pacote que estava no meu bolso. Pois bem, lá vem o cara com um cachorro muito do simpático (e eu que não gosto de cães hein) cheirando todo mundo. Quando chegou em mim, pensei que ia arrancar meu bolso porque de longe sentiu o cheiro. Impressionante mesmo. Saí da fila para jogar fora o chocolate e na hora que voltei, a guarda que estava próxima me conduziu para o mesmo lugar que eu estava (que educação viu!) e fez algumas perguntas sobre de onde vinha e porque vinha. Tudo respondido, toca a fila andar e estou no guichê do carimbo. Ai começa a encheção de saco.

Todo o brasileiro precisa de visto para entrar na Austrália. Eu estava com um visto especial por estar em missão da ONU (depois fiquei sabendo que temos visto liberado) mas impresso em papel comum como se fosse uma xerox que tinha recebido diretamente do escritório da UNDP em Bonn. Pois bem, a mulher vira que revira o sistema dela e nada de me achar. Medo!!! Será que me perderam no meio do caminho? (já tinham checado em SP e em Santiago).

Me deixam passar e um supervisor pega toda minha papelada e pede para eu esperar num sofá. Passam 10 minutos e depois de minhas explicações e também da verificação do visto em Canberra, um sorry for the delay. Everthing it’s fine! Beleza, estou na Austrália. Agora posso sair, pegar minhas malas, tomar um táxi e ir dormir em uma cama de gente.

Sydney é uma cidade muito, mas muito interessante. Bonita, arrumada e com um povo muito educado (pelo menos na cidade). Infelizmente não tive mais que algumas horas nesta metrópole devido a conexão que iria fazer logo mais a noite para Darwin, no território do norte mas assim mesmo pude passar boas horas de descanso e claro, engraçadas.

A primeira delas é que minhas malas sumiram! Parece sina mas anda acontecendo isso em vários vôos que ando pegando. Enfim, quando saí da imigração desço em um grande salão com várias esteiras. Procuro onde deveria estar a minha e nada da mala. Espero 15 minutos e nada. Então resolvo conversar com um guarda para saber delas. Ele diz que se não estiver na esteira, é para procurar o setor de bagagem para que possam achá-las. Nova caminhada até o setor e me atende uma japonesa muito educada que descobre o erro: os bocós de Santiago enfiaram minhas malas em outro vôo e estavam no porão do aeroporto. Disse que precisava delas e mandou buscá-las. Espero uns 15 minutos e vou andar para esticar as pernas. No caminho vejo a placa “Welcome to Sydney” e resolvi tirar uma foto (como de costume). Surpresa! Vem uma policial toda educada querendo ver as fotos que eu estava tirando. Liguei a câmera e mostrei o que tinha clicado e perguntei se precisava apagar. Ela se desculpou com toda a vergonha do mundo, disse que era por questão de segurança e que poderia ficar com a foto (ai está ela).

Welcome to SydneyVoltei para meu lugar e esperei mais 10 minutos quando a mesma japonesa perguntou se as malas não tinham chego. Disser que não e ela aparentemente frustrada, voltou para seu posto, ligou para o subsolo (onde deveriam estar procurando as malas) e ríspidamente perguntou onde estavam. Dois minutos depois eis que surgem as malas. Menos mal. Agora só faltava a parte da verficação sanitária.

Como já disse, na Austrália não se entra com nada que possa afetar o ecosistema deles. Isso inclui artesanato com penas, madeira, ossos e sementes, frutas, comidas, iogurtes e outros trecos mais (inclusive vi em uma lixeira um berimbau). Pensa você que pode ludibriá-los? Esqueça pois todas (e são TODAS mesmo) as malas passam pelo raio X e pela cachorrada que fica cheirando tudo. Simplesmente não vale a pena correr o risco pois se pegarem você no flagrante, são AU$ 2.000,00 pagos na hora ou cana (ai funciona né!). Como não tinha nada proibido, exceto meus remédios que poderiam dar algum problema (o que não aconteceu), passei tranquilo por esta área e dois minutos depois estava na rua!

A primeira providência foi fumar! Sim, acredite. Eu estava desde São Paulo sem fumar porque tanto em Santiago quanto em Auckland ou em Sydney não existe uma única área de fumantes. Concordo que precisamos deixar as pessoas que não fumam livres desta porcaria mas convenhamos, seria muito mais democrático que existissem áreas onde os fumantes podem tomar sua dose de morte tranquilos sem importunar ninguém. Isso existe em alguns aeroportos do mundo, tais como Frankfurt, Amsterdam e no Rio de Janeiro também. Bem, sai e fui fumar sob um sol da manhã que deixava o céu azul tal qual João Pessoa. Lindo lindo. Acabei o fuminho e fui procurar um hotel para descansar.

No aeroporto existem dois sistemas interessantes para reservas de hotel. Você pode ver uma lista de hotéis em painéis onde existe um telefone que você liga gratuitamente e reserva o quarto ou vai até um balcão onde existem alguns funcionários que indicam os melhores preços e acomodações de acordo com o que você pedir e já fazem a reserva. Optei pelo segundo pois não sabia as distâncias envolvidas entre os hotéis da primeira opção e o aeroporto e queria tomar um banho logo porque estava simplesmente grudando. Arrumei um hotel Ibis próximo ao aeroporto (não mais que 10 minutos) por AU$ 60,00 e me mandei. Tomei um táxi, e 15 minutos depois estava no quarto tomando um banho de soda para tirar aquele suor seco de avião.

Dormi 5 horas seguidas. Acordei e tomei outro banho para ir embora. Troquei de roupa e fui fazer o check-out. Na recepção pedi para chamarem um táxi e me surpreendi quando disseram que não possuem este serviço e teria que pegar um na rua. Estranho mas vá lá! Saio e fico na porta do hotel (numa grande avenida) e vinha vários passarem mas sempre “cheios”. Depois de 10 minutos percebi a asneira que eu estava fazendo: como a mão de direção na Austrália é a mesma que na Inglaterra, ou seja, do lado direito, sempre olhava para este lado do carro e sempre estava com gente. Claro né! Era o motorista que estava lá :-) Recomposto da burrice, páro o primeiro táxi (que devido sua ânsia de atender-me quase é atropelado por um caminhão), enfio as malas no carro e toco para o aeroporto. Mais 8 minutos e estava fazendo o check-in para Darwin.

Aqui, mais surpresas. Primeiro que se você quer um carrinho para carregar suas malas, tem que pagar! Sério!!! AU$ 2,00 pelo “aluguel” do carrinho (isso não acontece no desembarque). Estava com duas malas grandes e não tinha como carregá-las, então, mais dois dólares para o buraco (literalmente). Segundo: me venderam uam sacolinha tipo Paraguai (aquelas que usam para comprar muamba em Ciudad del Este) por AU$ 22,00. Outra burrice minha pois uma das malas tinha 3 quilos a mais e não deixaram passar. Poderia ter tirado em São Paulo e colocado na outra (estava com 18 quilos somente) mas acabei deixando para lá. Enfim, um bom aprendizado.

Despachei as malas e fui caminhar até a hora do vôo (faltavam 3 horas ainda). Faltando uma hora e meia entro para a área de embarque e interessantemente um dos “agentes” me diz: “are you brazilian no? I would like to know your country to see people playing soccer” Que mania que todo mundo tem de achar que o Brasil é só futebol….

Chega a hora do vôo (que atrasou 40 minutos) e vamos para mais uma perna: Darwin.

Darwin, Território do Norte, Austrália

Darwin é uma cidade nanica e obviamente tem um aeroporto nanico. Como a capital do território do norte, parece meio esquecida no país (mais ou menos como Cuiabá). Mas isso não quer dizer que não seja a Austrália. Pessoal educado, tudo organizado e um calor que botar medo. Cheguei as 10 para meia noite e meu vôo para Dili seria na manhã seguinte as 7 da manhã. Resultado: esperar no aeroporto por pelo menos quatro horas quando poderia fazer o check-in e despachar as malas (que me preocuvam, claro).

E o tempo se arrasta…. e se arrasta e eu tão moído quanto arroz de terceira. Enfim, chega o horário do check-in sem muitos sobressaltos, exceto que só seria desembarcada em Dili uma das minhas malas. A outra iria seguir no dia seguinte. Menos mal pois assim não teria que pagar excesso de bagagem (este vôo prevê somente 20 quilos).

Na ala internacional do aeroporto (que não é mais que uma sala grande) vejo uma lojinha do freeshop e entro para tentar pela enésima vez comprar um iPod. E desta vez dei sorte! Tinha o que queria com um preço muito bom (algo em torno de US$ 285,00). Agora arrumei um companheirão para as caminhadas por Dili e podia ir embora da Austrália satisfeito (pelo menos por enquanto pois acho que tem muita coisa legal para ver e fazer lá).

Dili, Timor Leste

Embarco em um avião Brasília em Darwin rumo a Dili. Uma viagem de 1 hora e meia traquila exceto pelo barulho da hélice do meu lado (mas nada que me impedisse de dormir profundamente). Quando acordo já estou sobre a ilha do Timor e chegando ao meu destino final. Mais 10 minutos e começo a ver Dili, a capital do Timor Leste. De cima, uma cidade muito parecida com Cusco no Peru, pequena e com montanhas em um dos lados (claro que não existe mar em Cusco). O avião começa a fazer uma curva e logo vejo a pista de pouso do aeroporto de Comoro. Com uma felicidade enorme por acabar a maratona e também por ter chego são e salvo no destino final, aterisso em Dili as 08:50 de 13 de janeiro de 2007 nesta terra que também será minha durante os próximos dois anos.

A seguir cenas dos próximos capítulos…

8 Comentários

Adicione o seu

  1. Adorei o seu relato. Ofereci meu trabalho para uma missão que partirá daqui algum tempo para o Timor Leste. Vamos ver se sai a aprovação.
    Gostaria de saber com anda sua experiência por aí. Poderia escrever-me?
    Abraços
    Marta

  2. Rodrigo de Souza Pain

    29/07/2007 — 15:32

    Que deliciosa aventura… Espero ter o prazer de pisar em breve em terras timorenses…

    Sorte e sucesso por aí… saudações ao povo irmão.

    Rodrigo.

  3. Adailto Batis

    26/07/2007 — 12:45

    Cara! exaustiva viagem, mais é isso nós aqui aprendemos com essas experiencias. de caras com coragem de olhar o mundo onde está e como realmente é. Ei Brasil, será qui na proxima encarnação vai ser melhor.

    Boa estada ai. muita sorte também.

  4. miguel viveiros

    24/06/2007 — 18:12

    ola paulino! adorei partilhar a sua aventura ate timor leste,pois tenho uma irma la a trabalhar para a onu desde o principio deste ano. realmente nos nem imaginamos o qual as diferenças q se seguem perante uma humanidade tao dispersa… dou-lhe os meus parabens e tudo de bom…obrigado!

  5. Muito legal o seu blog!

    Gostaria muito de ir ao Timor para ajudar nas eleições…ou com algum projeto de rádio…trabalhei por anos como locutora na 89fm em SP.

    bjs

    Lk!

  6. Que interessante! Seu blog e sua viagem! A partir de agora estou acompanhando!

    boa sorte ai!

    ps: em breve serei eu nessa maratona toda!

  7. Ricardo Cerqueira

    26/01/2007 — 16:43

    Rapaz que maratona heim? mais é isso, boa sorte nessa nova vida!!

  8. Muito legal esta viagem. Se você voltar pelo mesmo trajeto ganhará outro dia, tendo o seu saldo zerado. Até lá você tem um dia a menos em sua contabilidade.
    Mande fotos para vermos o seu novo ambiente.

    Abraços,

    Renato

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

seis − 4 =