A culpa é do asfalto

Gustavo é camarada dos bons. Pensa bastante, batalha bastante. Mas dia destes deslizou e disse que queria ser igual à mim, que só viajo, só passeio, só trabalho fora. Na verdade ele quis dizer que minha vida é muito boa, cheia de oportunidades e coisas assim. Mas, parafraseando uma empresa meia boca de software, get the facts (vamos aos fatos):

Minha vida é como ela é devido eu ser um cara muito burro. Daqueles tipo porta mesmo. Sou totalmente contrário ao status-quo da sociedade atual. Não gosto de baia no trabalho porque não sou cavalo. Não gosto de chamar chefe de “chefe” pois quem tem chefe é índio e tampouco gosto que digam para mim que a vida tem que ser feita de cereal, caminhadas e exames regulares ao médico. Então isso tudo me faz um ser diferente, um ser difícil para muitos e confesso que para mim também.

Para mim? Claro que sim! Ou acha que é fácil ser o lobo-mau da história (e pior que sem comer a chapeuzinho vermelho)? Sofro de dezenas de privações como por exemplo não saber o que é ter uma carteira de trabalho assinada há…. dez anos! Tudo bem, não sei para que presta a aposentadoria do INSS e tampouco se vai ter INSS daqui 30 anos mas isso é outra história. Também sou privado por exemplo de trabalhar no governo porque não tenho o ensino superior completo, nem mesmo aquele feito na Faculdade Beira-Mar, do tráfico do RJ. Então, ser aspone não dá para mim.

Tirando a brincadeira de lado (que nada tem de brincadeira), ser uma pessoa “do contra” não é fácil, principalmente quando se tem que explicar que Bill Gates, o cara mais rico do mundo, não tem faculdade. Ai ninguém acredita não é mesmo? E para explicar que o futuro é algo que está lá na frente e que se não viver hoje, não terei futuro? Não entra na cabeça da maioria dos mortais este tipo de pensamento pois “futuro” se constrói hoje. Claro que sim, vivendo e não vegetando. Eu ainda prefiro mil vezes descansar agora do que gastar com cardiologista quando tiver 60 anos.

E tudo isso começou por causa de um bicho, um comichão que tinha (e tenho) por asfalto. É uma coisa doida isso. Não conseguia ficar parado em casa estudando para colégio técnico ou vestibular. Aquilo não era para mim. Eu queria é asfalto, queria é ver o mundo. Queria ver se a Torre de Pisa é inclinada mesmo. Queria ver se Machu Picchu existe. Queria ver se o trem da morte era de morte (que nada, é fedido!). Queria andar nas ruas de Saigon (que hoje é Ho Chi Min) e tentar sentir o que foram 10 anos de bombas nas cabeças dos vietnamitas. Queria ver a Terra Média, queria ver cabeça de bacalhau (dizem que só na Noruega né). Queria ver tudo aquilo que via nos livros. Então eu fui, vi e vivi, mas não tive tempo para ficar estudando como ser um bom médico, um bom advogado, um bom engenheiro.

Na verdade, quando senti este ímpeto na vida, pesei muito dezenas de fatores. Pesei por exemplo os curricula de Bill Gates, Paulo Coelho (que não suporto mas mesmo assim tenho que dar o braço a torcer para ele), Jorge Amado. Pesei de Copérnico, de Arquimedes, de Galileu, de Tesla. Pesei de Amador Aguiar, de Sílvio Santos, de Ayrton Senna. Pesei de Gilberto Gil, de Caetano e de Roberto Carlos. Mas acho que pesei demais porque todos eles, sem excessão, possuem duas características iguais: não possuem faculdade e foram ímpares em suas vidas e na vida da humanidade. Então pensei: “caramba, acho que ser ímpar está do outro lado do banco da escola”. E ai já sabe o restante da história.

Se vou ser algo ou não? E eu quero lá saber?! Quero, da mesma forma que Senna, me dedicar ao máximo à vida (mesmo que morra cedo). Quero poder pensar como Newton sob uma árvore e descobrir o que nos segura no chão. Quero sonhar em voar como Galileu e deixar o legado para o helicóptero (ou qualquer outra coisa voadora). Quero é dormir depois do almoço e manter minhas faculdades mentais em dia. Mas não é fácil (como não foi para nenhum destes e outros). Afinal, se fosse fácil, todo mundo fazia.

Então meu caro Gustavo, a culpa é do asfalto. O asfalto que me privou de ter uma vida diferente, mas igual à de todos. A culpa é dele mas não toda. Parte também é do baixinho Dalai Lama que diz o seguinte:

Dalai Lama

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3 Comentários

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  1. Ricardo Macari

    08/07/2007 — 12:37

    Muito boas as tuas considerações Paulino, realmente eu também me sinto assim como você, me sinto inquieto diante de um emprego rotineiro em um mesmo local, o desejo de sair correndo é enorme. Fico feliz que você se sente assim e o melhor segue em busca da tua felicidade, trilhando um caminho pouco convencional.

    Sucesso guri e um grande abraco!

  2. Bem legal o texto Paulino, e obrigado pelas considerações.

    Agora vamos lá :

    – Minha vida é como ela é devido eu ser um cara muito burro.

    Cara burro ? Poxa Paulino… Nunca que você é um cara burro rapaz, conversa bem, age bem, enfim, se você fosse burro, com certeza não teria 1 % desses atributos.

    – Não gosto de baia no trabalho porque não sou cavalo. Não gosto de chamar chefe de “chefe” pois quem tem chefe é índio

    Detesto tudo isso também, talvez seja por isso que devo estar saindo da minha empresa, heheheh.

    Imagine se não houvesse o asfalto, que saco hein …. Mas se não existisse, com certeza você daria o jeito de criar um, posso ter certeza disso.

    Abração, e não fica chateado …

    Foi uma forma que eu achei de dizer que você é um cara “sortudo”, a sorte que você próprio correu atrás e construiu.

    []´s

  3. O segredo do sucesso sempre é vendido em prateleiras de livrarias, só que a receita do Bill não serve para todos.
    A do Silvio Santos é só dele…
    Cada um tem seu próprio “asfalto”.
    O problema é que grande maioria das pessoas tem medo, e nasceram para ter uma vida simples, ou para só ficar reclamando.

    Eu gosto muito desse texto atribuido a Goethe:

    “Antes do compromisso há a hesitação,
    a oportunidade de recuar, uma ineficácia permanente.

    Em todo ato de iniciativa ( e de criação),
    há uma verdade elementar cujo desconhecimento destrói muitas idéias e planos esplêndidos.

    No momento em que nos comprometemos de fato,
    a Providência também age.
    Ocorre toda uma espécie de coisas para nos ajudar,
    coisas que de outro modo nunca ocorreriam.
    Toda uma cadeia de eventos emana da decisão,
    fazendo vir em nosso favor todo tipo de encontros,
    de incidentes e de apoio material imprevistos,
    que ninguém poderia sonhar que surgiriam em seu caminho.

    Começa tudo o que podes fazer,
    ou que sonhas poder fazer.
    A ousadia traz em si o gênio, o poder e a magia”.

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