Sociedade fútil

Mulheres buscam “bumbum perfeito” para o verão.

Se esta manchete da Folha saísse no The Guardian, no Corriere della Sera, no Le Monde ou mesmo no Miami Herald seria algo para se espantar. No Brasil, claro, é uma “verdadeira manchete”. Um país onde o Ministério da Educação suspende 270 cursos de graduação por má qualidade, que possui somente 4 universidades entre as 100 melhores dos países emergentes e que consegue estar entre os 10 piores países do mundo no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) não é para espantar uma manchete destas, afinal, já que não são capazes de exercitar o “músculo” cérebro, precisam fazer em outras partes do corpo.

Mas isso não é culpa das mulheres, longe disso. É realmente dos homens que procuram “um objeto” para apresentar nas praias e baladas durante um verão e depois o descartam como um papel higiênico usado já de olho no rolo para a próxima cagada. Assim, os “machos” com seu nível intelectual irrisório, colaboram para que as desocupadas passem horas em esteiras e aparelhos de ginástica na perseguição de uma bunda que vai ser fodida (se for) uma vez e depois jogada fora. A bem da verdade é que não sei quem é pior: os homens com esta vergonhosa atitude ou as mulheres que se submetem a isso. Páreo difícil de decidir.

Pode o leitor dizer “então você não gosta de uma bunda”. Gosto, claro que sim. Adoro a de minha mulher que acho maravilhosa mesmo com as marcas dos anos (não somos mais jovens). Porém tenho muito mais interesse nas ideias e conversas que na bunda. Eu não converso com bunda, tampouco com peitos ou com xoxota (mas vez ou outra preciso conversar com “bundões” e “bundonas”). Eu converso com uma pessoa que precisa ter o mínimo de educação para manter um diálogo, coisa que bunda não faz (bunda não fala, peida). Então, pergunto-lhe: realmente uma bunda é objetivo? Realmente um corpo sarado é objetivo? Se acha que sim, lamento por você pois dentro de alguns anos terá uma surpresa interessante: todos caem, queira ou não, e você ficará com uma bunda flácida e peitos caídos em sua frente que nada trarão além de desgosto e repulsa.

Claro, como bom mal educado que é (mal educado = falta de educação formal), irá contra parafraseando Vinícius de Moraes (que você não sabe quem foi) que disse: “Que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental”. Será mesmo? Será que você realmente procura um corpo belo com uma cabeça de ervilha para ser mãe de seus filhos?

No fim das contas o mais frustrante é ver mulheres fazendo isso. Depois de tantas lutas para ter igualdade de direitos com os homens, por livre e espontânea vontade se sujeitam a esse tipo de coisa e, como bem disse a escritora Ivana Arruda Leite, autora de “Ao Homem que Não me Quis” citada na reportagem, o culto ao corpo é o retrato da “nossa decadência enquanto seres pensantes”. Puta merda, tanta “zebra” aconteceu no universo para estarmos neste planeta hoje e nos reduzimos a… bundas.

2 Comentários

Adicione o seu

  1. Lenise Ibiapino

    19/01/2015 — 23:31

    Oi Paulino, tudo bem? É a primeira vez que venho aqui, e posso afirmar que gostei muito. Gosto de gente que pensa e ler esse seu texto me fez simpatizar contigo rs. Escrevi sobre esse tema um tempo atrás. Acho muito triste o caminho que estamos trilhando, sabe? Tantos corpos esculturais nas capas das revistas e tantas mulheres reais com a estima no chão. É difícil lembrar que nem as modelos das revistas se parecem com as modelos das revistas, que dirá nós, pobres mortais que se derretem por um pedaço de bolo… É o mundo em que vivemos.
    Até breve!

    • Paulino Michelazzo

      20/01/2015 — 03:01

      Olá Lenise,

      Que bom que gostou. Confesso que não ando com muita inspiração para escrever porque poucos são os que pensam, mas…
      Volte sempre!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

15 − dez =