Óia a motoca, óia a motoca… bip bip bip…

E não é que fui atropelado por um timorense? Sim, mas eu não estava de moto (mesmo tendo adquirido uma). Estava de bicicleta voltando para casa na quinta-feira passada e um doido varrido sai da calçada com sua motoca e me atropela em cheio! Resultado: depois de uma pirueta no ar que me credencia a participar do Circo de Soleil, passando por cima da bicicleta, da moto e do timorense, no bendito reflexo de colocar o braço para aparar a queda, lá vai ele para fora da junta do ombro pela nona vez!

Pois é, pois é, se tivesse comprado um Volkswagen na Vimave né? Mas não tem jeito, operar ainda não. Deixa chegar no Brasil que entro na faca e em cuidados especiais.

Depois de avaliar o que tinha acontecido, vem aquela vontade do fundo da alma e tão bem explanada por Érico Veríssimo em um dos seus textos de dizer: “FODEU” Levanto segurando o braço e caminho para a calçada a fim de verificar se estava mesmo fora do lugar (até parece que não). Já no meio da “confusassi”, o senhorio de meu apartamento aparece, me enfia no seu carro e toca para o hospital da ONU. Lá checam que ele saiu mesmo do lugar (de novo!), convocam uma reunião com o secretário-geral em Nova Iorque para saber o que fazer com este brasileiro que sai do trânsito infernal de São Paulo para vir ser atrolepado em Dili (parece piada, mas não é).

Brincadeiras à parte, queriam me mandar para Darwin no dia seguinte em um avião da organização para curtir um final de semana num hospital australiano. Pela primeira vez na vida recusei tão acintoso convite e resolvi encarar o hospital nacional de Dili. Pelo menos poderia sofrer aqui e não do outro lado onde nem poderia xingar porque ninguém iria entender (e o legal do palavrão é entenderem o contexto dele).

Então, toca eu e meu fiel escudeiro George Barbosa para o hospital nacional de ambulância da ONU. Uma finesse só! Claro que a cada buraco meu braço chacoalhava e xingava em três ou quatro idiomas o motorista que deveria ser de algum país africano pois era inteligível o que dizia. A surpresa maior foi chegar lá e ser atendido por um médico ortopedista chinês… de bermudas!!! Isso mesmo, o dito cujo estava de bermudas sob o avental branco de médico. Uma figuraça que me tratou muito bem e ria dos comentários maldosos que fazia do meu próprio braço.

Numa tentativa de utilizar suas técnicas milenares de medicina asiática misturada com óleos de pandas chineses e koalas australianos, ele tentou colocar o braço no lugar fazendo aquilo que é chamado de “tração”. Um nome bem sugestivo para o tracionamento que eu fazia… no sentido inverso. Sem resultados, a solução era tirar uma soneca de 10 minutinhos para que o “horácio” ficasse bom (depois conto a do horácio…). Como o hospital é tão chique como o Souza Aguiar no Rio, podia escolher o anestesista. As opções: um cubano, um indonésio e um australiano. Claro que foi o cubano devido a medicina avançada e também por poder me comunicar com o mesmo em algo entendível para ambos.

Toco para a sala de cirurgia passando por um campo de refugiados DENTRO do hospital. Algo que nunca tinha visto ou imaginado em minha vida. Barracas da UNHCR espalhadas por uma grande área do hospital servem de casa para timorenses que ainda não voltaram para as suas. Lamentável ver as pessoas numa situação assim e mais ainda por estarem dentro de um hospital onde podem contrair tudo que é tipo de doença. Mas como dizem que Deus é grande….

Começo a bater papo com o ortopedista (e não parava de observar suas bermudas por sob o avental), fumo um cigarro e lá vem o anestesista, peça fundamental neste meu passeio noturno pelas ruas de Dili. Enorme, alto e com um bigodão “a lá Guevara”, me cumprimenta e respondo em espanhol. A alegria do dito cujo quando ouviu minhas frases somente podia ser comparada a minha felicidade em saber que aquela dor estaria dentro em breve estancada e poderia, na pior das hipóteses, tirar um sono com o braço novamente no lugar nem que fosse numa maca.

Entramos para a sala e conversando com ele, me contou que lá estava por um intercâmbio entre os dois países. De uma paciência de Jó, ele explicava para seus assistentes timorenses porquê iriam usar a droga “A” ao invés da “B”, quanto precisava para que eu dormisse “X” tempo, como seria aplicada e assim por diante. Sua forma de apresentar as coisas se mostrava tão simples e segura que até pensei, naquele momento, em largar a área de IT para virar médico (menos geriatra, por favor!). Me raspam a mão direita (está ridículo!!!) e enfiam uma agulha para pegar a veia. Começa a descer o soro e logo depois sinto a anestesia queimando. Só deu tempo de sacanear o chinês dizendo que não era para comer meu braço e apagar.

Um aparte: 15 minutos se passaram e pela primeira vez nestas nove eu sonhei na anestesia. Sonhei mesmo!!! Nada de delírio ou coisa do tipo. Sonho mesmo, daqueles que vão se tornar realidade. Estranho não é? Mas aconteceu!

Back! Voltei da anestesia e lá estava o cubano conversando comigo para saber se estava tudo bem. Claro que sim! Estava falando com ele sobre churrasco e feijoada! Tinha que estar não? Decidido a ir embora, invoco meu fiel escudeiro (o Dr. George) para quem disse: “meu nego, se não me tirar daqui para dormir em casa, não faço mais janta nos finais de semana”. Certo de perder a boquinha, lá vai ele negociar minha saída tanto com o cubano como com outros. No meio tinha um outro médio filipino (não me pergunte de onde saiu) que não queria deixar, mas como foi voto vencido, meia hora depois estava em casa indo dormir na minha cama meio gelada por causa também do ar-condicionado que esqueci ligado durante o dia.

E o timorense que me atropelou? Nem sinal do dito cujo. Acho que deve ter ficado tão assustado com meu salto mortal por cima dele que desapareceu para não mais vê-lo. É uma pena, pelo menos poderia dizer à ele que o erro foi meu que estava na contramão :(

Para agradecer, ao Dr. George que me fez rir quando não podia (e se diz amigo hein!), ao Dr. “Guevara” que esqueci o nome mas vou no hospital só para convidá-lo para um almoço e ao Mr. Sebastian, senhorio do compond que me socou no carro e me levou para o hospital. Ahhh, e claro, ao timorense que me propiciou assunto para este post e a TimorTelecom que me esfola mas “eu gostho!!!”

1 Comentário

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  1. Sonho que se sonha só não é somente um sonho… ;-)

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