Quando o fim chegar

Categoria(s): Música, Pessoal

Acho muito interessante como o cérebro funciona juntando fragmentos de informação aqui e acolá de uma forma “ainda” indecifrável, mas que para ele é muito simples (pelo menos penso que é) e montando situações que por muitas vezes são inusitadas ou até mesmo malucas. Veja este exemplo.

Há coisa de duas semanas faço visita na casa de minha mãe. Quando fui para o Timor Leste em 2007, deixei com ela uma declaração para que, em caso de minha morte e se possível, meus órgãos e tecidos fossem doados para o banco de órgãos da Unicamp e meu corpo cremado. Fiz isso porque ao contrário da maioria dos ocidentais, eu trato a morte como um evento que irá ocorrer, queira ou não. Como morte é um saco em todos os sentidos onde além da perda, coisa que para muitos é duro demais, ainda existe a burocracia de “acabar” com o morto de vez e ao contrário que imagina, morrer dá um enorme trabalho para quem fica. Cartório para certidão de óbito, enterro/cremação, etc etc e claro, nosso querido Estado que faz tudo para tornar este momento ainda mais desgraçado.

Claro que não penso em morrer mas se puder facilitar para aqueles que ficarão e terão que cuidar disso tudo, faço. Então refiz a declaração esta semana atualizando alguns dados (mas ainda sou doador e quero ser cremado) e deixei pronta para “o fim”.

Mas voltando ao cérebro e suas sinapses…

Sou fã declarado de Frank Sinatra. Para mim ele foi um dos maiores artistas que já pisaram neste planeta, fosse como cantor, fosse como ator, o eterno blue eyes era simplesmente fodaço. Dentre todas as dezenas de sucessos de sua carreira, gosto de quase tudo mas principalmente das maravilhosas Moon River, Come Fly with Me, I’ve Got You Under My Skin, New York, New York e Night and Day. Mas no meio de todas, uma se destaca e muito: My Way.

A música não é dele (como boa parte de seus grandes sucessos) mas sim de Claude François e Jacques Revaux, artistas franceses que a gravaram em 1967 e alcançaram algum sucesso nos países de língua francesa. Em 68, Paul Anka, que tem a vantagem de falar tanto inglês como francês, fez uma versão no idioma de Shakespeare que foi interpretada por dois monstros: Elvis Presley e Frank Sinatra. Confesso que não sei qual das duas é melhor mas como gosto muito mais do Sinatra, fico com este.

E onde entra o cérebro?
Pois bem. Por alguma conexão estranha, quando estava atualizando a declaração, me lembrei de alguns fragmentos da letra de My Way que é basicamente uma explicação de alguém indo desta para melhor, sobre como viveu a vida. Veja:

And now the end is near
And so I face the final curtain
My friend, I’ll say it clear
I’ll state my case of which I’m certain
I’ve lived a life that’s full
I’ve travelled each and every highway
and more, much more than this
I did it my way

Regrets I’ve had a few
But then again too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption
I planned each chartered course
Each careful step along the by-way
And more, much more than this
I did it my way

Yes, there were times
I’m sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all
And I stood tall
And did it my way

I’ve loved, I’ve laughed, and cried
I’ve had my fill, my share of losing
And now, as tears subside
I find it all so amusing
To think I did all that
And may I say, not in a shy way
“Oh no, oh no, not me
I did it my way”

For what is a man, what has he got?
If not himself then he has naught
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows I took the blows
And did it my way

Yes, it was my way

Louco não? Por quê lembrar justo desta música quando estava pensando em… morte? E o mais estranho é que até hoje não tinha lido a letra da música, somente ouvido.

Como é que o cérebro então faz coisas como estas? Será que ele consegue juntar coisas tão díspares como uma declaração e uma letra de música meio esquecida dentro do disco rígido da cabeça? Vai saber. Alguns podem chamar de coincidência, outros de destino e outros ainda de presságio. O fato é: ainda não sabemos como este computador magnífico funciona e, para mim, creio que não terei tempo de saber.

Se for presságio, que seja pois já me decidi. Quero My Way tocando na minha cremação. Vai cair bem por ser uma ótima música e explicar facilmente o que penso e faço da vida; simplesmente… in my way.

PS: na voz de Sinatra, please!